“Mundo Invertido” do marketing: como Stranger Things virou uma máquina multimilionária no Brasil

Netflix fechou recorde de parcerias com marcas para o fim da saga, superando fenômenos anteriores

Imagem: Divulgação/Netflix

Imagem: Divulgação/Netflix

A estreia da metade inicial da quinta (e última) temporada de Stranger Things, em 26 de novembro, fez muito mais do que agitar os fãs: acionou uma máquina de marketing que consolidou a série como uma das principais plataformas de negócio do streaming no Brasil.

A Netflix fechou um recorde de 26 parcerias comerciais com marcas nacionais para a despedida da saga, superando o volume atingido por fenômenos anteriores como Wandinha. O movimento revela um modelo de financiamento que já é realidade: usar o buzz de uma série global para gerar receita paralela e amplificar o alcance das marcas.

O tamanho do negócio

Fontes do mercado indicam que os contratos operam em três faixas:

  • Pacote pequeno: R$ 1 mi – R$ 1,5 mi
  • Pacote médio: R$ 3 mi – R$ 4 mi
  • Pacote grande: R$ 8 mi – R$ 9 mi

Considerando apenas o menor valor para cada uma das 26 marcas, o faturamento mínimo direto ultrapassa R$ 26 milhões. O valor real é consideravelmente maior, dado que várias empresas investiram em ativações amplas e multicanal.

Setores em destaque

O setor de alimentos e bebidas dominou as ações, com nove marcas envolvidas. Estratégias variaram de produtos licenciados a experiências imersivas:

  • Pringles: Lançou sabores como Upside Down Bacon em latas colecionáveis com QR Code para realidade aumentada.
  • Nestlé (ChocoBakery): Criou uma promoção com viagem aos EUA e recriou o mercado de Hawkins em “pause ads” dentro da própria Netflix.
  • Seara: Apostou em kits temáticos (como o Kit Seara Netflix) e lançou edições especiais como a Stranger Pizza.
  • McDonald’s: Cardápio especial, ambientação em lojas e campanha multicanal.

O segmento de colecionáveis, brinquedos e papelaria aparece em força, com sete marcas, aproveitando o apelo nostálgico e de fandom:

  • BIC: Transformou a clássica caneta BIC 4 Cores em item licenciado.
  • Lego, Panini, Ri Happy: Reforçaram presença com produtos temáticos.

O novo “evento” do streaming

Executivos do mercado já comparam o fenômeno a um Super Bowl ou a um episódio final de novela no streaming. A diferença crucial é que a janela de atenção não se fecha: o conteúdo fica disponível, prolongando o ciclo das campanhas e o retorno para as marcas.

A lógica é clara: para a Netflix, distribui custos de produção e prolonga a vida comercial do título. Para as marcas, é acesso a um pico global de audiência altamente engajada e segmentada. Um caso claro de como o entretenimento virou uma robusta plataforma de negócios.

Efeito “set-jetting”: quando a série vira roteiro de viagem

A influência de Stranger Things transcende as prateleiras dos supermercados e as telas: ela molda também os roteiros de viagem. A série se tornou um dos maiores impulsionadores da tendência global do “set-jetting”: quando fãs viajam para conhecer os cenários reais de suas produções favoritas.

Dados da plataforma Hoteis.com revelam que, com a chegada da última temporada, os brasileiros aumentaram significativamente as buscas por destinos nos Estados Unidos que serviram de locação para a série, como a Geórgia, a Califórnia e Indiana.

Esse movimento não é isolado. Um relatório da Expedia Group (que inclui Hoteis.com e Vrbo) projeta que, somente nos EUA, o “set-jetting” terá um impacto econômico de US$ 8 bilhões em 2026. O fenômeno é impulsionado especialmente pelas gerações mais jovens: 81% dos viajantes da Geração Z e Millennials que planejam viagens nos próximos três anos consideram destinos que viram na TV ou no cinema.

Dessa forma, a jornada dos fãs por Hawkins começa no streaming, passa pelo carrinho de compras com produtos licenciados e pode terminar (ou ter um capítulo especial) em uma viagem real aos cenários que deram vida à ficção, fechando um ciclo completo de experiência e consumo em torno da série.

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