Indústria avança 0,9% em fevereiro, mas guerra já ameaça ritmo de crescimento

Produção acumula alta de 3% no bimestre puxada por automóveis e petróleo, mas escalada do petróleo e dos fretes pode frear recuperação nos próximos meses.

Foto: gorodenkoff/iStock

Foto: gorodenkoff/iStock

A produção industrial brasileira avançou 0,9% em fevereiro na comparação com janeiro, segunda taxa positiva consecutiva, segundo dados da Pesquisa Industrial Mensal (PIM) divulgada nesta quinta-feira (2) pelo IBGE. Com isso, o setor acumula expansão de 3% no primeiro bimestre de 2026.

O crescimento teve perfil disseminado: taxas positivas nas quatro grandes categorias econômicas e em 16 dos 25 ramos pesquisados.

O que puxou para cima

  • Veículos automotores (+6,6%): principal destaque do mês, puxado por automóveis e autopeças. O setor acumula expansão de 14,1% nos dois primeiros meses do ano, revertendo o recuo de 9,5% registrado no fim de 2025
  • Derivados de petróleo e biocombustíveis (+2,5%): terceiro mês consecutivo de alta, com ganho acumulado de 9,9% no período
  • Máquinas e equipamentos (+6,8%)
  • Móveis (+7,2%)
  • Bebidas (+3,4%)
  • Produtos têxteis (+4,4%)

O que já preocupa

O cenário de recuperação do bimestre foi construído antes da escalada do conflito no Oriente Médio. Com pouco mais de 30 dias de guerra, os impactos já começam a aparecer na cadeia produtiva nacional:

  • Fertilizantes: preço dos nitrogenados importados subiu cerca de 30%. O Brasil importa entre 85% e 90% do que consome, principalmente do Oriente Médio e da Rússia.
  • Fretes: transporte de frutas do Nordeste para o Sudeste saltou de R$ 15.800 para entre R$ 18 mil e R$ 20 mil, uma alta de até 26%.
  • Diesel: pressão sobre toda a cadeia logística, com impacto direto no custo de transporte de insumos e produtos acabados.

Os números de fundo

Apesar do crescimento recente, a produção industrial brasileira ainda está 14,1% abaixo do nível recorde alcançado em maio de 2011. Em relação a fevereiro de 2025, o setor recuou 0,7%, influenciado pelo efeito-calendário (fevereiro de 2026 teve dois dias úteis a menos) e por uma base de comparação mais elevada.

A média móvel trimestral registrou +0,3% em fevereiro, interrompendo a trajetória descendente iniciada em outubro de 2025 (um sinal de reversão consistente de tendência, mais robusto que o dado pontual mensal).

O que esperar

Os dados de março e abril, quando os efeitos do conflito sobre fertilizantes, fretes e derivados de petróleo devem aparecer com mais clareza na cadeia produtiva, serão decisivos para avaliar se o crescimento do bimestre se sustenta.

Os dois setores com maior peso no crescimento interanual (extrativas e derivados de petróleo) são justamente os mais expostos ao conflito no Oriente Médio, o que representa um fator de risco para a manutenção desse desempenho nos próximos meses.

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