Brasil é “vencedor relativo” da guerra, mas ajuste fiscal é o calcanhar de Aquiles, alerta XP

País se beneficia da alta do petróleo e da distância geográfica do conflito, mas fragilidade das contas públicas impede queda estrutural dos juros, dizem economistas

Foto: Reprodução/ABES

Foto: Reprodução/ABES

O Brasil tem se destacado como um dos “vencedores relativos” do conflito no Oriente Médio, segundo análise de Rodolfo Margato, sócio e vice-presidente de pesquisa econômica da XP Inc., apresentada durante evento da Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES) na última quarta-feira (15).

De acordo com Margato, dois fatores principais explicam o desempenho positivo do país em meio à turbulência global: a distância geográfica do conflito e, mais importante, o fato de o petróleo bruto ter se tornado o principal item da pauta exportadora brasileira desde 2025.

“Isso puxa muito a balança comercial e gera uma valorização de termos de troca que ajuda a segurar o câmbio abaixo de R$ 5,00″, afirmou o economista durante sua apresentação aos associados da ABES.

O calcanhar de Aquiles

Apesar do otimismo com o saldo da balança comercial, Margato acendeu um sinal de alerta sobre a questão fiscal. “Se a dívida pública não tiver uma perspectiva de estabilização em relação ao PIB, difícil imaginar a inflação na meta de 3% ou a Selic consistentemente abaixo de 10%”, pontuou.

Para o economista, essa é a principal vulnerabilidade da economia brasileira no momento. “Não tem ainda um grande freio de arrumação por esse lado”, afirmou, classificando o desequilíbrio fiscal como o “grande calcanhar de Aquiles” do país.

A preocupação não é nova. Em outubro de 2025, Caio Megale, também economista-chefe da XP, já havia afirmado ao CNN Money que o Brasil vivia “à beira da dominância fiscal”, cenário no qual as contas públicas passam a pautar a economia acima de outros temas, como inflação e mercado de trabalho .

Os números das contas públicas

Em relatório divulgado em junho de 2025, a XP já projetava um déficit primário de R$ 69 bilhões (0,5% do PIB) para 2026, distante da meta de superávit de R$ 31,8 bilhões estipulada pelo governo. Seriam necessários R$ 67 bilhões em receitas adicionais para alcançar o centro da meta no ano que vem.

Os riscos estão concentrados principalmente no lado das despesas. O governo terá que lidar com aumento nos gastos com benefícios previdenciários e assistenciais, impacto da redução da fila do INSS e despesas hoje fora do orçamento, como o programa “Pé de Meia”. Além disso, há possibilidade de elevação de custos em programas como Bolsa Família e Vale-Gás.

O que esperar

O governo, por sua vez, tem adotado medidas para conter os impactos da guerra sobre a população. O ministro do Planejamento, Bruno Moretti, afirmou que o presidente Lula determinou que “seja feito o que for necessário para povo não pagar por guerra”, com um pacote que inclui subsídios ao diesel, ao gás de cozinha e ao querosene de aviação, além de zerar tributos federais.

A questão que fica, no entanto, é a sustentabilidade desse modelo. Para a XP, sem um ajuste estrutural na dívida pública, o Brasil terá dificuldades em manter a inflação e os juros em patamares baixos a longo prazo e o chamado “momento positivo” pode ter os dias contados.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *