Ricardo Longa — Por que 2026 será o ano da descentralização para o delivery?

A competição agora se dá em profundidade, na operação, na tecnologia e, sobretudo, na experiência

Foto: miglagoa/iStock

Foto: miglagoa/iStock

Nos últimos anos, o mercado de delivery no Brasil está em uma crescente transformação, algumas visíveis ao consumidor e outras silenciosas, porém muito mais estruturais. Depois de anos marcados pela concentração em somente um player, estamos entrando em uma nova fase, em que o monopólio deixa de ser regra e a descentralização passa a ser tendência inevitável. E 2026 será o ano em que esse movimento finalmente será visível.

O que estamos acompanhando é o resultado de algo que levou tempo para amadurecer: a percepção de que nenhum ecossistema saudável sobrevive com apenas um grande ponto de controle. A chegada de novos players ao foodservice, muitos deles com capacidade de investimento relevante, começa a redesenhar o mapa competitivo. Mas, diferente do que vimos no passado, essa não será uma simples guerra de preços ou de marketing. A competição agora se dá em profundidade, na operação, na tecnologia e, sobretudo, na experiência.

Essa descentralização traz efeitos claros. Primeiro, o consumidor volta a ganhar voz. Com mais opções, ele deixa de aceitar experiências engessadas. A fluidez, a transparência e a previsibilidade passam a ser critérios tão importantes quanto o próprio preço. O usuário quer escolher, e essa escolha, cada vez mais, depende da jornada de ponta a ponta, e não apenas do desconto do dia.

Segundo, os restaurantes ganham liberdade estratégica. A multiplicação de canais permite aumentar o alcance e testar novos modelos, mas exige maturidade operacional. Em um cenário descentralizado, vencerá quem conseguir integrar, orquestrar e controlar todos os pontos de contato. E isso requer inteligência logística real que reduza erros e pare de tratar gargalos como “acidentes inevitáveis”.

Terceiro, os entregadores passam a ter autonomia. Com o surgimento de diferentes modelos e dinâmicas de trabalho, surge também uma nova lógica de escolha. A previsibilidade de ganhos, a capacidade de planejar rotas e a estabilidade operacional se tornam fatores decisivos em uma profissão que historicamente viveu na incerteza. A descentralização abre espaço para relações mais equilibradas.

Se há alguns anos o setor parecia caminhar para um único polo, agora é como se tivéssemos muitas pequenas centrais sendo formadas, cada uma com suas especialidades, tecnologias e propostas de valor. E, na prática, isso é extremamente positivo. Mercados descentralizados são mais resilientes, mais inovadores e mais eficientes. Eles criam espaço para soluções mais adequadas às necessidades reais dos parceiros e dos consumidores.

Mas é importante dizer: a descentralização exige coordenação, inteligência e um nível de liderança operacional que o mercado nunca precisou desenvolver antes. É por isso que 2026 será um ponto de virada. Será o ano em que a disputa deixará de ser sobre “quem domina o mercado” e passará a ser sobre “quem oferece a melhor experiência”.

Por isso, acredito que o delivery deixa de ser apenas um canal de venda e se torna um ponto especial de atenção para as cidades. E infraestrutura não pode depender de um único ator. Ela precisa ser distribuída, integrada e sustentável, criando um ecossistema fortalecido.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *