Terras raras: o que são, onde estão e por que viraram disputa global

Acordo de Goiás com os EUA escancara a disputa por esses 17 elementos essenciais para a tecnologia moderna

Foto: Thibault Renard/iStock

Foto: Thibault Renard/iStock

O governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), assinou na quarta-feira (18) um memorando de entendimento com o governo dos Estados Unidos para cooperação na área de minerais críticos e terras raras. O documento, firmado no Consulado dos EUA em São Paulo, prevê parcerias para mapeamento geológico, capacitação técnica e desenvolvimento de processamento local desses minerais.

O movimento ocorre em meio a tensões diplomáticas entre os dois países e acendeu um debate: um estado pode firmar esse tipo de acordo com outra nação? O governo goiano sustenta que sim, desde que respeitadas as competências da União. Mas o episódio escancarou a importância estratégica desses elementos até ontem desconhecidos do grande público.

O que são terras raras e para que servem

Terras raras são um grupo de 17 elementos químicos com propriedades únicas. Eles não são exatamente “terras” (o termo vem dos óxidos metálicos assim chamados no século XVIII) nem exatamente “raros”, pois alguns são mais abundantes que cobre ou chumbo. A dificuldade está em encontrá-los em concentrações que tornem a extração viável.

O grupo inclui 15 lantanídeos: lantânio (La), cério (Ce), praseodímio (Pr), neodímio (Nd), promécio (Pm), samário (Sm), európio (Eu), gadolínio (Gd), térbio (Tb), disprósio (Dy), hólmio (Ho), érbio (Er), túlio (Tm), itérbio (Yb) e lutécio (Lu); e dois elementos associados: escândio (Sc) e ítrio (Y), que ocorrem nos mesmos minérios e têm propriedades semelhantes.

Para que servem

As terras raras estão em praticamente toda tecnologia moderna. Seu uso mais importante é na fabricação de ímãs permanentes (pequenos, potentes e duráveis, essenciais para motores elétricos). Mas a lista de aplicações é vasta:

  • Tecnologia e eletrônicos: telas de celular e TV (európio e térbio), fibras ópticas (érbio), discos rígidos e alto-falantes (neodímio).
  • Energia limpa: turbinas eólicas e motores de veículos elétricos (neodímio, praseodímio, disprósio).
  • Defesa e aeroespacial: mísseis, aviões de caça, sistemas de laser e telêmetros (samário, gadolínio, ítrio).
  • Saúde: contrastes para ressonância magnética (gadolínio) e equipamentos de raio-X (túlio).
  • Indústria: catalisadores de petróleo (lantânio, cério) e polimento de vidros (cério).

O quilo do neodímio e do praseodímio (os elementos mais usados em ímãs) custa cerca de 55 euros (R$ 353). Já o térbio pode ultrapassar 850 euros (R$ 5.460). Para comparação, o minério de ferro vale cerca de R$ 0,60 o quilo.

Onde estão no Brasil

Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo, atrás apenas da China. As principais ocorrências estão espalhadas pelo país:

  • Goiás: abriga a única mina em operação comercial de terras raras do Brasil, a Serra Verde, em Minaçu. A região tem depósitos em argila iônica, um dos tipos mais valiosos por ser mais fácil de processar.
  • Outros estados: há registros no Amazonas, Minas Gerais, Bahia, Maranhão, Piauí e Ceará .
  • Elevação do Rio Grande: o Brasil reivindica uma formação submarina do tamanho da Espanha, a 1.200 km da costa do Rio Grande do Sul, que estudos indicam ser rica em terras raras.

Mas se as reservas estão espalhadas pelo mundo, o refino é concentrado. A China domina cerca de 90% do processamento global de terras raras (a etapa mais complexa e lucrativa). Nos últimos anos, EUA e União Europeia começaram a formar reservas estratégicas e buscar alternativas à dependência chinesa. Para certos elementos, como os mais pesados, a dependência europeia chega a 100%.

O que está em jogo

Mais do que um debate jurídico, o caso escancara a urgência de uma política nacional para minerais críticos. O Brasil tem as reservas, mas falta capacidade de processamento. Hoje, a única operação comercial ativa é em Goiás, justamente onde Caiado, pré-candidato a presidente, quer capitalizar politicamente o tema.

“O Brasil tem a oportunidade de desempenhar um papel fundamental no desenvolvimento de cadeias globais de suprimentos de minerais críticos seguras e resilientes”, disse Gabriel Escobar, encarregado de negócios dos EUA, no Fórum Brasil-EUA em Minerais Críticos. Os americanos já identificaram mais de 50 projetos de mineração no país e veem potencial para investimentos bilionários.

Enquanto isso, a China domina o refino e o mundo, cada vez mais eletrificado, depende desses 17 elementos para funcionar. O Brasil senta sobre uma das maiores reservas do planeta. A questão é se vai extrair apenas o minério ou, também, o valor que vem com ele.

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