Foto: Cristian Lourenço
A Organização Internacional para as Migrações (OIM) e a Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza anunciaram uma parceria voltada ao fortalecimento de políticas públicas de adaptação climática nos municípios brasileiros.
A iniciativa aposta nas chamadas Soluções Baseadas na Natureza (SBN) como estratégia para reduzir impactos de eventos extremos e, consequentemente, evitar deslocamentos forçados de populações afetadas por enchentes, deslizamentos, secas, ondas de calor, erosão costeira e incêndios florestais. As instituições produziram um documento conjunto com recomendações práticas para auxiliar prefeituras na adoção das SBN.
O cenário de vulnerabilidade
Os dados utilizados pelas instituições mostram um cenário de crescente vulnerabilidade. Informações da plataforma AdaptaBrasil, divulgadas em 2024, apontam que 66% dos municípios brasileiros apresentam baixa ou muito baixa capacidade adaptativa frente a eventos climáticos extremos. Isso significa que dois em cada três cidades não estão preparadas para lidar com as consequências das mudanças climáticas.
De acordo com a Confederação Nacional dos Municípios (CNM), os desastres naturais relacionados a eventos hidrológicos, como enxurradas e inundações, representam 75% dos registros no país . As cidades brasileiras mais vulneráveis a desastres naturais estão predominantemente nas regiões Nordeste e Sudeste, segundo levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).
Em 2024, a Defesa Civil Nacional registrou 3.164 desastres em todo o país. Apenas os eventos relacionados a alagamentos, enxurradas e inundações somaram 889 ocorrências (28% do total). No acumulado de 2025, 1.008 municípios já haviam decretado emergência por conta de eventos climáticos extremos.
O que são Soluções Baseadas na Natureza
Entre os exemplos citados pela iniciativa para solucionar esses problemas estão a conservação e restauração de manguezais, recuperação de matas ciliares, ampliação de áreas verdes urbanas e revegetação de encostas .
Estas soluções utilizam ecossistemas naturais para enfrentar desafios socioambientais, complementando ou substituindo infraestruturas tradicionais. Segundo o World Resources Institute (WRI) Brasil, entre as soluções aplicáveis em centros urbanos estão os telhados verdes, jardins de chuva, pavimentos permeáveis e a restauração de florestas urbanas.
Integração entre agendas ambientais, humanitárias e econômicas
Débora Castiglione, representante da OIM, agência da Organização das Nações Unidas (ONU), explica que a proposta busca integrar agendas ambientais e humanitárias.
“A parceria reforça a mensagem de que conservar a natureza é investir na proteção das pessoas, e uma das formas mais eficazes de evitar deslocamentos por desastres no futuro é promover políticas públicas integradas que antecipem riscos e fortaleçam a resiliência das comunidades”, afirma Débora.
Além da dimensão humanitária, o tema também tem repercussões econômicas. O Relatório de Riscos Globais 2026, do Fórum Econômico Mundial, inclui os deslocamentos forçados entre os dez principais riscos para a economia mundial nos próximos dois anos.
Entre 2015 e 2024, cerca de 2 milhões de pessoas foram deslocadas internamente no Brasil devido a desastres relacionados ao clima. A região Nordeste respondeu por cerca de 40% do total de pessoas deslocadas internamente. Segundo a agência da ONU para refugiados, 97% desses deslocamentos foram provocados por enchentes e inundações.
O que esperar
O movimento de integração entre políticas ambientais e de proteção civil ainda é incipiente no Brasil, mas ganha força diante da recorrência de eventos extremos. Segundo especialistas, a adoção de SBN pode reduzir custos de adaptação no longo prazo e evitar perdas humanas e materiais.






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