Foto: Ricardo Stuckert/PR
O Brasil encerrou sua participação na cúpula do G7 em Évian-les-Bains, na França, com um saldo diplomático que escancara a distância entre Brasília e o grupo das sete maiores economias do mundo. Dos oito textos negociados pela presidência francesa, o governo Lula deve aderir a apenas três. Na avaliação da delegação brasileira, os documentos foram deliberadamente moldados para garantir a permanência dos Estados Unidos na cúpula e evitar o veto do presidente Donald Trump.
Documentos “sob medida” e omissões estratégicas
Segundo fontes próximas das negociações, a anfitriã França teria aberto mão de incluir temas centrais para não irritar Washington. O resultado foi uma série de declarações que omitem:
- Mudanças climáticas — totalmente ausente dos textos.
- Papel da Organização Mundial da Saúde (OMS) — o documento sobre o surto de ebola não menciona a agência da ONU, da qual os EUA se retiraram.
- Reforma das instituições multilaterais — tema não abordado.
- Menção a conflitos mundiais — tratados de forma genérica.
“Paris abriu mão de evocar o tema das mudanças climáticas, ausente das declarações. No texto sobre o combate ao ebola, não há menção sobre a importância e expertise da OMS”, confirmou um integrante da delegação brasileira à RFI.
Os textos que o Brasil apoiou
Dos seis documentos já divulgados (sobre questões geopolíticas, parcerias internacionais, combate ao câncer, ebola, tráfico de drogas e migração) o governo brasileiro endossou apenas:
- Combate ao câncer — tema prioritário na agenda de saúde pública do governo Lula.
- Combate ao tráfico de drogas — desde que o texto final não enquadre organizações criminosas como grupos terroristas.
Brasília deve ainda endossar as conclusões sobre proteção de menores na esfera digital, documento em preparação e que será tema da última sessão, com presença de CEOs de big techs como Sam Altman, da OpenAI.
Os textos rejeitados
O Brasil ficou de fora de pelo menos quatro declarações importantes:
- Parcerias internacionais para o desenvolvimento — Brasília considera a abordagem “insuficiente e despolitizada”, pois ignora questões ambientais, dívida externa e combate à fome.
- Desequilíbrios macroeconômicos — o texto foca na China sem mencionar impactos do unilateralismo comercial americano.
- Minerais críticos — o enfoque é considerado “extrativista e geopolítico”, voltado a criar coalizão ocidental contra a China.
- Combate ao ebola — a omissão à OMS foi o principal motivo da recusa.
O Brasil não é o único convidado a se abster. Os demais países do Sul Global (Egito, Quênia e Índia) também não aprovaram a maioria dos textos; apenas a Coreia do Sul concordou.
O debate sobre desenvolvimento
Na sessão que reuniu G7 e países convidados, as diferenças ficaram explícitas. Macron defendeu mecanismos de garantia para mobilizar capital privado; Trump defendeu as contribuições americanas à África. Lula argumentou que o problema não é escassez de recursos, mas escolha política sobre como usá-los, uma posição que diverge da abordagem predominante no texto do G7.
A intervenção que mais se aproximou da posição brasileira veio da primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, que reconheceu que os países ricos cometeram erros nas últimas décadas e criaram dependência nos países em desenvolvimento.







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