Câmara aprova política nacional para minerais críticos com fundo de R$ 5 bi

Proposta cria conselho para homologar mudanças de controle de mineradoras e incentivos para processamento no Brasil, mas evita modelo intervencionista defendido por alas do governo

Foto: Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados

Foto: Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados

A Câmara dos Deputados aprovou nesta quarta-feira (6) o projeto de lei que institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE), em votação simbólica. O texto segue agora para análise do Senado.

A proposta cria um arcabouço legal para regular a exploração de minerais essenciais para a transição energética e o desenvolvimento tecnológico, como terras raras, lítio, cobalto, níquel e grafite, fundamentais para baterias de veículos elétricos, turbinas eólicas, painéis solares e semicondutores.

O Brasil detém a segunda maior reserva de terras raras do mundo (21 milhões de toneladas), atrás apenas da China, e é líder global em nióbio. Apenas 25% do território nacional foi mapeado, o que indica potencial ainda maior.

Os principais instrumentos do projeto

  • Fundo Garantidor da Atividade Mineral (FGAM): Com aporte de até 2 bilhões de reais da União, o fundo funcionará como garantia para projetos de exploração, facilitando o acesso ao crédito pelo setor.
  • Programa Federal de Beneficiamento e Transformação (PFMCE): Prevê R$ 5 bilhões em créditos fiscais ao longo de cinco anos para empresas que processarem minerais no Brasil. O crédito é escalonado: quanto mais avançada a etapa da cadeia (concentrados, materiais para baterias, ímãs permanentes), maiores os benefícios.
  • Lista de minerais estratégicos: Um conselho vinculado à Presidência definirá quais substâncias são consideradas críticas ou estratégicas, revisando a lista a cada quatro anos.

O conselho que ganhou força e o veto que foi embora

O ponto mais sensível do projeto sofreu alteração de última hora. A versão original previa que o governo teria anuência prévia sobre fusões, aquisições e mudanças de controle em mineradoras que atuam com minerais críticos. A exigência foi substituída por um mecanismo de homologação via conselho e Agência Nacional de Mineração (ANM), nos termos de regulamento a ser publicado.

A mudança foi uma resposta direta à reação do setor privado, que argumentava que um poder amplo de veto poderia afastar investidores internacionais e gerar insegurança jurídica.

Transição energética e soberania

Na tribuna, o debate expôs a divisão entre os parlamentares. A deputada Jandira Feghali (PCdoB-RJ) criticou o texto por não estabelecer percentuais sobre limite de capital estrangeiro nem criar uma estatal nos moldes do pré-sal, como defendia uma ala do governo. O relator, deputado Arnaldo Jardim (Cidadania-SP), afirma que o objetivo é que o Brasil não seja mero exportador de commodities minerais. O deputado Zé Silva (União-MG), autor do projeto, completou: “Não abrimos mão de que os investimentos tenham a presença firme do Estado, mas sem ser o Estado gigantesco que acha que precisa fazer tudo”.

Próximos passos

Aprovado na Câmara, o projeto segue para o Senado. Se aprovado, ainda precisará ser sancionado pelo presidente Lula. O tema deve ser tratado na reunião entre Lula e Donald Trump em Washington nesta quinta-feira (7), com os EUA interessados em acesso facilitado a minerais brasileiros para reduzir a dependência da China.

Armado com um fundo garantidor, crédito para processamento e um conselho com poder de homologação (mas sem o veto amplo que o mercado temia) o Brasil tenta dar um salto na cadeia de valor dos minerais do futuro. Resta saber se será o bastante para transformar reserva em soberania tecnológica.

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