Escala 6×1: governo fecha acordo por transição de três anos e jornada de 40 horas

Após reunião com Lula, presidente da Câmara indica que texto da PEC prevê redução imediata da jornada de 44 para 40 horas semanais, mas com prazo de um ano para implantação total

Foto: Bruno Spada / Câmara dos Deputados

Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reuniu nesta segunda-feira (25) com o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), para destravar a votação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que reduz a jornada de trabalho e põe fim à escala 6×1.

Após o encontro, Motta afirmou que o texto deve prever jornada de 40 horas semanais sem corte de salário, com transição de um ano para a implantação total da nova regra. Nos bastidores, no entanto, o governo tende a apoiar uma transição de três anos, segundo fontes ouvidas pelo Valor Econômico.

O que já está definido

Jornada máxima de 40 horas semanais: A proposta reduz o limite atual de 44 horas, sem redução salarial, conforme já pacificado entre governo, relator e setores envolvidos.

Fim da escala 6×1: A nova regra garante dois dias de descanso remunerado por semana, substituindo o modelo atual de seis dias de trabalho por um de descanso.

Transição entre 1 e 3 anos: O principal ponto de divergência neste momento é o prazo para a entrada em vigor da nova regra. Lula defende a redução imediata, mas aceita negociar. Hugo Motta indicou transição de um ano; fontes do governo sinalizam apoio a três anos.

Pontos ainda em aberto

Votação do relatório: O relator da PEC na comissão especial, deputado Léo Prates (Republicanos-BA), deve apresentar seu parecer final nesta segunda (25), com votação prevista na comissão para terça (26) e no plenário da Câmara ainda nesta semana.

Projeto de lei paralelo: O governo apresentou um projeto de lei (instrumento diferente da PEC, que não altera a Constituição) com a mesma proposta de redução para 40 horas semanais e dois dias de descanso. Não há definição sobre se as duas propostas tramitarão juntas.

Exceções para setores essenciais: A PEC original, de autoria da deputada Erika Hilton (PSOL-SP), prevê jornada de 36 horas semanais com implementação em 360 dias. Já a proposta de Reginaldo Lopes (PT-MG), de 2019, prevê transição de dez anos para o mesmo patamar. O texto que avançou, no entanto, fixou-se nas 40 horas como consenso mínimo.

O que dizem os setores

A favor: O ministro do Desenvolvimento, Márcio Elias Rosa, defendeu publicamente o fim da escala 6×1, citando exemplos de Portugal, Espanha, França, Reino Unido e Japão, que já reduziram a jornada. “Reduz o absenteísmo, reduz o afastamento em razão de problemas de saúde”, afirmou.

Contra: O empresário Flávio Rocha, dono da Riachuelo, afirmou que o custo do varejo deve subir entre 18% e 20% com a medida, com impacto estimado sobre os preços de 13%. “Isso vai precisar ser repassado aos preços para preservar margens, ou levará à redução do número de empregados”, disse.

Construção civil: Estudo da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic) aponta que a redução da jornada pode elevar em até 10% o custo de imóveis do programa Minha Casa, Minha Vida, além de exigir cerca de 288 mil novos trabalhadores para compensar a perda de horas.

Agronegócio: O presidente da Abramilho, Paulo Bertolini, classificou a medida como “trágica” para o setor, que demanda mão de obra intensiva sete dias por semana. “Além de encarecer a produção, isso vai fazer com que o custo no prato dos brasileiros fique mais caro”, afirmou.

Impacto econômico: Estudo da Tendências Consultoria, encomendado pela Federação das Indústrias do Paraná (Fiep), estima que o fim da escala 6×1 pode reduzir o PIB em 3,7% apenas no primeiro ano de vigência, com risco de demissão ou informalidade para cerca de 1,5 milhão de trabalhadores.

Experiência internacional

O Brasil se junta a uma lista de países latino-americanos que reduziram a jornada na última década:

  • Colômbia: redução de 48 para 42 horas semanais, aprovada em 2021, com implementação gradual até julho de 2026.
  • México: redução de 48 para 40 horas, promulgada em março de 2026, com implementação a partir de janeiro de 2027 até 2030.
  • Chile: redução de 45 para 40 horas, sancionada em 2023, com chegada às 40 horas apenas em 2028.

No Brasil, a discussão ocorre em meio a divergências sobre o ritmo e os impactos da mudança. O governo aposta na aprovação ainda no primeiro semestre, enquanto setores produtivos pedem mais tempo para adaptação.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *