Foto: Dima Sidelnikov
O mercado automotivo brasileiro registrou em maio o quinto mês consecutivo de vendas acima de 200 mil unidades, consolidando a recuperação do setor no primeiro semestre de 2026. De acordo com dados divulgados pela Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), as vendas totais em maio cresceram 1,26% na comparação com o mês anterior, totalizando 208.148 veículos (incluindo carros, comerciais leves, caminhões e ônibus).
No acumulado do ano, o setor mantém trajetória positiva, sustentado principalmente pelos incentivos do programa Carro Sustentável e pela melhora gradual das condições de financiamento.
Carro Sustentável puxa alta no trimestre
O principal motor do crescimento no primeiro semestre foi o programa Carro Sustentável, lançado pelo governo federal. A iniciativa concedeu descontos no IPI para veículos com menor impacto ambiental, aquecendo especialmente o segmento de carros de passeio e utilitários leves.
Os números da Fenabrave mostram o impacto direto da medida: o número de automóveis elegíveis ao programa saltou de 69.417 para 110.000 unidades entre o primeiro trimestre de 2025 e o mesmo período de 2026, um crescimento de 31%.
O presidente da Fenabrave, Arcelio Junior, atribuiu o resultado positivo a uma combinação de fatores. Em coletiva de imprensa no início de abril, ele destacou que “o mercado brasileiro é muito competitivo, e as promoções de automóveis estão incentivando bastante as compras dos consumidores”. Além dos descontos do IPI, as montadoras têm oferecido condições especiais de financiamento e bonificações para manter o ritmo de vendas mesmo em um cenário de juros ainda elevados.
Outro fator apontado pelo executivo foi o calendário favorável em março, com maior número de dias úteis, o que contribuiu para o desempenho robusto daquele mês e ajudou a sustentar a tendência de alta nos meses seguintes.
Projeção anual mantida, mas cenário é de incerteza
Apesar da sequência positiva, a Fenabrave decidiu manter sua projeção de crescimento para 2026 em 3%, o que representaria 2,77 milhões de veículos emplacados ao final do ano. A decisão reflete a cautela do setor diante de um cenário econômico que ainda apresenta riscos relevantes.
A própria Fenabrave reconhece que o cenário atual é particularmente difícil de prever. Em comunicado recente, a entidade afirmou que “a palavra do momento é incerteza”, em referência ao impacto dos conflitos geopolíticos no Oriente Médio sobre a economia global e os preços dos combustíveis. Por isso, a associação deve revisar suas estimativas apenas em julho, quando tiver mais clareza sobre os desdobramentos da guerra e seus efeitos sobre o mercado doméstico.
Desempenho por categoria
Embora o balanço detalhado por categoria para maio ainda não tenha sido divulgado separadamente, o comportamento geral do setor nos primeiros meses do ano mostra que os carros de passeio e utilitários leves seguem puxando o crescimento, enquanto caminhões e ônibus ainda sentem os efeitos da desaceleração da atividade econômica e da queda nas margens do agronegócio.
O programa Carro Sustentável concentrou seus benefícios justamente nos veículos mais leves, o que ajudou a acelerar esse segmento. Já o mercado de caminhões, historicamente vinculado ao PIB e ao crédito, deve seguir com desempenho mais modesto, a menos que haja uma melhora significativa no financiamento ao produtor rural e à indústria.
O que esperar
A combinação de juros ainda elevados, guerra no Oriente Médio pressionando o petróleo e incertezas fiscais no Brasil recomenda cautela. O próprio presidente da Fenabrave já afirmou que itens como câmbio, renda e crédito “influenciam nos negócios do setor”, o que dificulta prognósticos precisos para os próximos 12 meses
Por ora, o mercado automotivo parece ter encontrado um piso de sustentação, com vendas mensais consistentemente acima de 200 mil unidades. Se a economia brasileira conseguir desacelerar a inflação sem provocar uma recessão profunda, e se o governo mantiver os incentivos fiscais, o setor pode surpreender positivamente no segundo semestre. Se o cenário externo se deteriorar, a Fenabrave terá que revisar suas projeções para baixo, como já fez em 2025 sob impacto dos juros altos.







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